Progressofobia

Progressofobia

Atualmente damos como garantidos diversos dons que demoraram séculos ou mesmo milénios a serem conquistados. Os recém-nascidos que viverão quase nove décadas. Os supermercados que abarrotam com comida. Os jovens que desfrutam de ensino gratuito e universal. Os críticos dos poderosos que podem expressar as suas opiniões sem serem presos ou, até mesmo, assassinados. Todos estes dons são negligenciados e esquecidos por grande parte da população mundial que prefere desfrutar da visão pessimista do mundo. Um estudo realizado por Hans Rosling revelou que apenas 5**% dos americanos (e apenas 3% dos espanhóis**) sabem que a proporção da população mundial a viver em pobreza extrema reduziu para quase metade nos últimos 20 anos.

Na verdade, como Steven Pinker enfatiza na sua obra Enlightenment Now, durante os últimos 25 anos as capas de todos os jornais do mundo poderiam ter como manchete “Ontem, 137 mil pessoas saíram da pobreza extrema!”. No entanto, somos diariamente invadidos por notícias que nos descrevem o horror dos homicídios, o crime da desigualdade económica, o intensificar das alterações climáticas e os problemas da energia nuclear. É inverosímil pensar que um jornalista ao fazer uma reportagem afirme “Estou em direto a partir de uma cidade que não foi bombardeada”, uma vez que as notícias são sempre sobre coisas que acontecem e nunca sobre coisas que não sucedem.

O progresso estende-se a sensivelmente todas as áreas. A expectativa média de vida duplicou nos últimos 100 anos. A mortalidade infantil é atualmente um quinto do que era em

O número de países a viver em democracia é mais alto do que nunca e dois terços da população mundial vive num regime democrático. O número de homicídios tem vindo a decrescer de forma constante nas últimas décadas e situa-se, globalmente, nos 6.2 homicídios por 100.000 pessoas. 86% da população mundial com mais de 15 ano sabe ler e escrever. A média de horas trabalhadas por semana situava-se nas 65 horas em 1900 e é agora de 35 horas. No entanto, tem este progresso todo tido algum impacto considerável na nossa felicidade? A resposta é sim, tem. Nas últimas décadas, 86% dos países registaram um aumento substancial da felicidade dos seus cidadãos. Independentemente de o mundo estar a melhorar ou não, a índole das notícias irá sempre influenciar o índole da cognição de modo a fazer-nos pensar que está, de facto, pior.

Em 2016, Barack Obama afirmou que se tivesse de escolher um momento na história para nascer e não soubesse em que país, nem em que condição iria nascer escolheria o momento atual. Com efeito, as afirmações do antigo presidente norte-americano fazem todo o sentido e não são de todo providas de um otimismo ignorante. Segundo a teoria de John Rawls, uma pessoa livre e racional sob um véu de ignorância toma uma escolha imparcial, pois como não sabe que situação pode obter, prefere realizar um escolha racional e optar pela opção que lhe garante a melhor das piores situações. Assim, nesta situação a escolha racional recairia definitivamente sobre a sociedade atual.

Como vimos, é fundamental adquirir uma visão mais factual do nosso mundo na medida em que nos permite perceber que não está tao mal quanto pensamos e entender o que podemos fazer para contribuir para a construção